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Mulheres, Guitarras e Caminhos Abertos: por que a presença feminina na música instrumental importa


Francinni Guitar Show se apresentando no Festival de Blues de Jacareí
Francinni Guitar Show se apresentando no Festival de Blues de Jacareí

Durante muito tempo, a história da música foi contada como se as mulheres estivessem apenas na plateia ou nos vocais. Mas basta olhar com atenção para perceber que elas sempre estiveram lá: compondo, tocando, experimentando sons e abrindo caminhos — muitas vezes sem receber o reconhecimento merecido.


Na guitarra instrumental, essa invisibilização foi ainda maior. A figura do “guitarrista virtuoso” quase sempre foi associada a homens, criando um imaginário que afastou muitas meninas do instrumento antes mesmo de começarem. No entanto, a realidade é outra: mulheres tiveram papel fundamental no desenvolvimento da linguagem da guitarra, especialmente no blues, no rhythm and blues, no gospel elétrico e nas raízes do rock.


Pioneiras como Sister Rosetta Tharpe, que já nos anos 1930 e 40 eletrificava o gospel com uma guitarra cheia de ataque e swing, ajudaram a moldar o som que mais tarde daria origem ao rock. Lady Bo foi uma das primeiras mulheres a se destacar na guitarra elétrica em bandas de R&B, enquanto Barbara Lynn provou que era possível liderar uma banda, compor e tocar com identidade própria. No Mississippi Hill Country, Jessie Mae Hemphill manteve viva uma tradição de blues profundamente rítmica e hipnótica.


Essas guitarristas não apenas tocaram: elas definiram estilos.

Ainda assim, seus nomes raramente aparecem nos livros ou nas listas de “maiores guitarristas da história”. Essa lacuna histórica é justamente o que torna tão importante o surgimento de iniciativas contemporâneas que resgatam, celebram e ampliam o espaço das mulheres na guitarra.


Um palco para novas histórias


É nesse contexto que surge o Francinni Guitar Show.

Mais do que um espetáculo instrumental, o projeto se posiciona como uma afirmação estética e histórica: a guitarra também é território feminino. O show mistura influências de surf music, blues primitivo, ritmos latinos e atmosferas tropicais, criando uma identidade sonora própria que dialoga com diferentes tradições da guitarra instrumental.


A proposta não é apenas tocar — é contar histórias através da guitarra.

Dentro desse universo nasce também a Tropical Twangy Tour, inspirada no EP homônimo com as músicas autorais Cigana dos Sonhos e Sal Grosso. O projeto conecta sonoridades que atravessam geografias: do imaginário western às influências africanas, passando pelo Caribe, pela América Latina e pela Amazônia brasileira. Essa mistura revela como a guitarra instrumental pode ser um instrumento de narrativa cultural, capaz de ligar territórios e tradições.


Representatividade também é instrumento


Outro aspecto importante dessa trajetória é a relação com marcas históricas da guitarra. Francinni Soret se tornou a única representante brasileira da tradicional marca americana Silvertone — uma conquista simbólica e prática.


A primeira guitarra da marca em sua trajetória foi a Silvertone 1303, carinhosamente chamada de Toninha. Foi através desse instrumento que seu trabalho chegou aos ouvidos da própria empresa, resultando no convite para a parceria. Em um universo onde endorsements costumam ser dominados por homens, essa representatividade ganha ainda mais significado.


Ensinar também é transformar

Além dos palcos, há outra frente essencial nessa construção: a educação musical.

Ao desenvolver um curso de guitarra voltado para mulheres e meninas, Francinni contribui diretamente para quebrar um ciclo histórico. Quando uma iniciante vê outra mulher ensinando, tocando e pesquisando repertórios de guitarristas femininas, algo muda no imaginário: o instrumento deixa de parecer um território inacessível.


Ensinar guitarra nesse contexto não é apenas transmitir técnica.É também reconstruir referências.


O futuro da guitarra já começou


Hoje existe uma nova geração de guitarristas que cresce em um cenário mais diverso. Mas essa mudança não acontece sozinha — ela depende de artistas, educadoras e pesquisadoras que estejam dispostas a abrir espaço, contar outras histórias e mostrar que a guitarra pode soar de muitas maneiras diferentes.


Projetos como o Francinni Guitar Show fazem parte dessa transformação.

Cada apresentação, cada composição e cada aula ajudam a ampliar um território que sempre foi das mulheres também — mesmo quando tentaram nos convencer do contrário.


A guitarra instrumental ainda tem muitas histórias para contar. E cada vez mais, elas estão sendo contadas por mulheres.

 
 
 

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CAPA - FRANCINNI GUITAR SHOW-TROPICAL TWANGY_edited.png

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