Mulheres, Guitarras e Caminhos Abertos: por que a presença feminina na música instrumental importa
- Francinni Soret
- há 4 dias
- 3 min de leitura

Durante muito tempo, a história da música foi contada como se as mulheres estivessem apenas na plateia ou nos vocais. Mas basta olhar com atenção para perceber que elas sempre estiveram lá: compondo, tocando, experimentando sons e abrindo caminhos — muitas vezes sem receber o reconhecimento merecido.
Na guitarra instrumental, essa invisibilização foi ainda maior. A figura do “guitarrista virtuoso” quase sempre foi associada a homens, criando um imaginário que afastou muitas meninas do instrumento antes mesmo de começarem. No entanto, a realidade é outra: mulheres tiveram papel fundamental no desenvolvimento da linguagem da guitarra, especialmente no blues, no rhythm and blues, no gospel elétrico e nas raízes do rock.
Pioneiras como Sister Rosetta Tharpe, que já nos anos 1930 e 40 eletrificava o gospel com uma guitarra cheia de ataque e swing, ajudaram a moldar o som que mais tarde daria origem ao rock. Lady Bo foi uma das primeiras mulheres a se destacar na guitarra elétrica em bandas de R&B, enquanto Barbara Lynn provou que era possível liderar uma banda, compor e tocar com identidade própria. No Mississippi Hill Country, Jessie Mae Hemphill manteve viva uma tradição de blues profundamente rítmica e hipnótica.
Essas guitarristas não apenas tocaram: elas definiram estilos.
Ainda assim, seus nomes raramente aparecem nos livros ou nas listas de “maiores guitarristas da história”. Essa lacuna histórica é justamente o que torna tão importante o surgimento de iniciativas contemporâneas que resgatam, celebram e ampliam o espaço das mulheres na guitarra.
Um palco para novas histórias
É nesse contexto que surge o Francinni Guitar Show.
Mais do que um espetáculo instrumental, o projeto se posiciona como uma afirmação estética e histórica: a guitarra também é território feminino. O show mistura influências de surf music, blues primitivo, ritmos latinos e atmosferas tropicais, criando uma identidade sonora própria que dialoga com diferentes tradições da guitarra instrumental.
A proposta não é apenas tocar — é contar histórias através da guitarra.
Dentro desse universo nasce também a Tropical Twangy Tour, inspirada no EP homônimo com as músicas autorais Cigana dos Sonhos e Sal Grosso. O projeto conecta sonoridades que atravessam geografias: do imaginário western às influências africanas, passando pelo Caribe, pela América Latina e pela Amazônia brasileira. Essa mistura revela como a guitarra instrumental pode ser um instrumento de narrativa cultural, capaz de ligar territórios e tradições.
Representatividade também é instrumento
Outro aspecto importante dessa trajetória é a relação com marcas históricas da guitarra. Francinni Soret se tornou a única representante brasileira da tradicional marca americana Silvertone — uma conquista simbólica e prática.
A primeira guitarra da marca em sua trajetória foi a Silvertone 1303, carinhosamente chamada de Toninha. Foi através desse instrumento que seu trabalho chegou aos ouvidos da própria empresa, resultando no convite para a parceria. Em um universo onde endorsements costumam ser dominados por homens, essa representatividade ganha ainda mais significado.
Ensinar também é transformar
Além dos palcos, há outra frente essencial nessa construção: a educação musical.
Ao desenvolver um curso de guitarra voltado para mulheres e meninas, Francinni contribui diretamente para quebrar um ciclo histórico. Quando uma iniciante vê outra mulher ensinando, tocando e pesquisando repertórios de guitarristas femininas, algo muda no imaginário: o instrumento deixa de parecer um território inacessível.
Ensinar guitarra nesse contexto não é apenas transmitir técnica.É também reconstruir referências.
O futuro da guitarra já começou
Hoje existe uma nova geração de guitarristas que cresce em um cenário mais diverso. Mas essa mudança não acontece sozinha — ela depende de artistas, educadoras e pesquisadoras que estejam dispostas a abrir espaço, contar outras histórias e mostrar que a guitarra pode soar de muitas maneiras diferentes.
Projetos como o Francinni Guitar Show fazem parte dessa transformação.
Cada apresentação, cada composição e cada aula ajudam a ampliar um território que sempre foi das mulheres também — mesmo quando tentaram nos convencer do contrário.
A guitarra instrumental ainda tem muitas histórias para contar. E cada vez mais, elas estão sendo contadas por mulheres.
Comentários